Victoria’s Secret corre o risco de ficar com as calcinhas na mão

NEW YORK, NEW YORK - NOVEMBER 08: (L-R) Ming Xi, Grace Elizabeth, Cindy Bruna, Sara Sampaio, Stella Maxwell, and Romee Strijd walk the runway during the 2018 Victoria's Secret Fashion Show at Pier 94 on November 08, 2018 in New York City. (Photo by Noam Galai/Getty Images)

Queda nas vendas e até guerra cultural por causa de modelo trans afetam a empresa que inventou uma genial fórmula de marketing para vender lingerie sexy

O segredo do negócio: até o desfile da Victoria’s Secret (ao centro, de preto, Adriana Lima se despede) está na mira Noam Galai/Getty Images

Quem achava que a despedida de Adriana Lima da passarela da Victoria’s Secret foi o lance mais dramático do último desfile da marca não sabe a realidade do mundo do varejo de hoje. Nem das muitas batalhas da guerra cultural.

Mal secaram as lágrimas de emoção da modelo baiana em seu desfile de aposentadoria – na provecta idade de 37 anos –, e começaram a voar penas para todo lado.

E não eram das asas que enfeitam as modelos mais destacadas do desfile anual que deixa homens do mundo inteiro em estado de alta ansiedade.

A executiva-chefe, Jan Singer, foi demitida por não corresponder às expectativas quase impossíveis: segurar o sangramento nas 1.170 lojas de calcinhas, sutiãs e outras coisinhas sensuais em todo o mundo, um negócio espantosamente bem sucedido pelos produtos e a decoração de boudoir quando foi lançado, mas hoje afetado pela concorrência mais quente, as vendas online e mudanças comportamentais.

Nesse último capítulo, obviamente, figura o centro fundamental do modelo de negócios da empresa: colocar as mulheres com os corpos mais espetaculares do mundo das modelos – pelo menos 1,75 metro de altura, menos de 50 quilos e máximo de 90 de quadris – rebolando de calcinha e sutiã, com enfeites, plumas, brilhos e “empatia”.

Ao contrário dos desfiles de moda convencionais, onde as modelos são sérias e inatingíveis, o evento da Victoria’s Secret incentiva as beldades a dar tchauzinho, mandar beijos e interagir com o público.

Com isso, uma geração de modelos brasileiras, descontraídas além de lindas, com aquele jeitinho de andar que as outras passaram a imitar, fez fama e fortuna.

Gisele Bündchen começou aos 19 anos, em 1999, e aposentou as asas em 2006, depois de praticamente virar a “cara” da marca – e os seios, naturalmente, projetados pelos sutiãs cobertos por pedras preciosas, outro lance genial de marketing.

Alessandra Ambrosio fez o último desfile no ano passado, aos 36 anos, praticamente um espanto nesse mundo. Agora foi a vez de Adriana Lima, outro prodígio de sobrevivência.

Famosas ou estreantes, todas tiveram que passar pelo teste da forma, lapidada com disciplina militar e vontade de ferro, muitas vezes poucos meses depois de darem a luz.

É claro que colocar jovens seminuas, com seus corpos de perfeição quase sobrenatural orgulhosamente exibidos, é uma ideia que encontra alguns problemas no mundo atual, em especial nos Estados Unidos.

Só para lembrar: o concurso Miss América decidiu em junho que não fará mais o desfile de maiô ou biquíni. “Não vamos mais julgar as candidatas pela aparência física”, disse a direção.Publicidade

E as candidatas vão fazer o quê? Vestibular? Qual a lógica de um concurso de miss que pula o pedaço da “aparência física”?

Julgar mulheres pela aparência física tem sido um hábito da humanidade desde que o pobre Páris foi obrigado a escolher a mais bela entre Hera, Atenas e Afrodite.

A ganhadora obviamente fez o jogo mais sujo: prometeu a ele não a responsável pela redação nota mil no Enem, mas a mulher mais deslumbrante do mundo. Seguiu-se a Guerra de Tróia, um dos mitos fundadores da civilização ocidental.

A qual, no momento, não anda muito favorável ao exibicionismo feminino, mesmo quando voluntário e bem remunerado, não produto da objetificação das despoderadas.Publicidade

Isso se forem mulheres com cromossomos sexuais do tipo XX. Se tiver um Y no meio, é quase obrigatório que sejam mostradas ao mundo em toda a sua glória.

Foi uma discussão do tipo que encrencou outro executivo da Victoria’s Secret, o diretor de marketing Ed Razek. Numa entrevista à Vogue, ele disse em tom algo exasperado que a marca construiu um mundo de fantasia com características específicas, sem espaço para modelos plus size – todo mundo sabe o que significa – e outras novidades

“Vivem perguntando por que vocês não põem um manequim número 50? Ou número 60? Não deviam ter transexuais no show? Não e não. Acho que não. O show é uma fantasia, é um especial de entretenimento de 42 minutos. É único no mundo. Qualquer competidor pegaria na hora.”

Não é preciso nem dizer que já tem abaixo-assinado pedindo a cabeça de Ed Razek. Inclusive por usar a palavra “transexual” em lugar da politicamente correta “transgênero”.Publicidade

A Victoria’s Secret pertence à L Brands, conglomerado sediado em Columbus, Ohio, um dos lugares menos trepidantes do mundo. O dono é Les Wexner, um homenzinho frugal de 81 anos – só perde para Warren Buffett como bilionário mais velhos na ativa.

Abrir e fechar lojas é um processo natural para Wexner. Atualmente, está fechando a rede Henri Bendel.

Ele entende a concorrência das compras online, mas segue uma filosofia simples. Quem compra no mundo digital está procurando algo específico. Quem vai a lojas físicas acaba surpreendido por alguma coisa quem nem sabia que queria comprar.

Calcinhas e sutiãs cheios de laços, rendas, fendas e outros frufrus estão ficando superados? O mercado mudou e Lex Wexner não viu? O mundo será um lugar melhor sem o desfile anual das diabinhas chamadas de Angels? Ou um desfile inteiramente feito por modelos trans vai reposicionar a marca, entre outros atributos?

Aguardem respostas no desfile do ano que vem.

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